A megaoperação policial realizada no dia 28 de outubro nos Complexos do Alemão e da Penha para conter o avanço territorial do Comando Vermelho, fortaleceu ainda mais o debate sobre segurança pública no Rio de Janeiro e no Brasil. O número impressionante de 117 faccionados mortos, todos com algum tipo de passagem, envolvimento ou relação com o crime – segundo a Polícia Civil – alerta para dois dados que merecem toda atenção e análise: a alta taxa de adesão de jovens ao narcotráfico e a elevada eficiência das facções em recrutar adeptos extremamente comprometidos com a organização criminosa.
Relatos de policiais que participaram da ação e o depoimento do Comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), Marcelo Corbage, ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, sinalizam para uma temerária evolução do comportamento dos grupos armados. Segundo Corbage, os membros da facção criminosa demonstraram um comportamento diferente daquele apresentado em outros confrontos. Durante a megaoperação, ao invés de se oporem brevemente e depois empreenderem fuga, os opositores sustentaram fogo e agiram com grande agressividade contra as forças policiais. Esse relato, para além de apontar o uso de táticas mais avançadas de combate, sinaliza um perigoso aprofundamento no comprometimento dos indivíduos com a facção e suas lideranças, demonstrando radicalização, o que alguns autores descrevem como “ideologia do confronto”.
Não é de hoje que a atividade de facções e grupos armados é analisada sob a perspectiva de um conjunto de normas, comportamentos, signos e representações voltadas à criação da identidade e fortalecimento do senso de pertencimento. O culto à violência como forma de expressão e a designação formal de um ou mais inimigos, cria a coesão entre membros de determinada facção e estrutura a ideologia do confronto, como descrito por pesquisadores que investigam o tema. O debate não é nada novo, assim como os conceitos. Desde os anos 80 que facções e as dinâmicas estruturais da violência são investigadas, entretanto, a expansão feroz e a radicalização no comportamento de indivíduos faccionados observada recentemente, trazem novas reflexões e exigem uma verdadeira e decisiva virada de chave no combate à violência e ao crime organizado.
Muito abordado entre acadêmicos no México e na Colômbia, o conceito de “narcocultura” é fundamental para entendermos um dos principais vetores de aliciamento e recrutamento de jovens para o crime organizado ou para a prática de delitos. Segundo o sociólogo colombiano Didier Correa Ortiz, a “narcocultura” não se restringe exclusivamente ao comportamento no ambiente compartilhado entre criminosos ou narcotraficantes, mas abrange dimensões sociais e estéticas mais amplas. Desde o modo de vida cotidiano, incluindo hábitos, valores e interações no interior dos grupos criminais, passando pelo relacionamento junto às comunidades onde se localizam e chegando a concepções estéticas e narrativas, como expressões artísticas caracterizadas pela música ou literatura, notamos fundamentalmente as raízes que explicam – em grande parte – a adesão de vastos contingentes à facções como o Comando Vermelho. Turbinada pelas redes sociais, a narcocultura se fortalece. Se os recursos advindos dos primeiros roubos, furtos ou pelo trabalho na boca de fumo já eram direcionados para o consumo de roupas de marca, cordões e relógios que transmitiam “status” no baile ou até mesmo no interior das favelas, lá pelos anos 90 e 2000, com o advento das redes sociais e popularização dos smartphones, o alcance da imagem que se vende tornou-se ilimitado, ampliando de forma indefinida o alcance da estética e dos valores compartilhados na narcoesfera.
O entendimento das redes sociais enquanto vetor de rápida disseminação da narcocultura é basilar para construção de um diagnóstico preciso, favorecendo então a preparação de um antídoto. Estudos recentes demonstram os efeitos nocivos da exposição às redes sociais de crianças e adolescentes. Um dos efeitos é a redução das capacidades cognitivas e desconexão com a realidade. Nesse sentido, se pensarmos que hoje, em decorrência da ausência de ferramentas eficazes de controle, milhares de crianças e adolescentes ficam expostos a conteúdos que promovem a sexualização exacerbada, a cultura da ostentação e a violência como forma de mediação e de expressão, começamos a entender a profundidade de penetração da narcocultura na sociedade e, principalmente, nas periferias. Um jovem que fica exposto às letras de MCs como Oruam ou Poze, que estimulam o ódio e valorizam na mais elevada potência a cultura do consumo e do prazer a todo custo, rapidamente reproduzirá em seu cotidiano aquilo que escuta, tendo seu comportamento e desejos moldados, como bem alertou o etnólogo Alan Merriam em seus estudos sobre os efeitos da música na construção das relações e do comportamento.
Nesse sentido, para simplificar as coisas, podemos entender que estamos, enquanto sociedade, deixando literalmente milhões de crianças e adolescentes expostos a uma cultura que alimenta a ideologia do confronto e da violência, baseada na desvalorização da vida e na brutalização dos indivíduos. As tropas de faccionados que promovem o terror todos os dias nas comunidades do Rio, encontram um campo rico para o recrutamento de novos soldados. Operações como a ocorrida em 28 de outubro são necessárias, os moradores, principalmente os mais pobres e vulneráveis, já não aguentam mais as humilhações e violências cotidianas realizadas pelas facções e seus soldados. Entretanto, só poderemos vencer essa guerra se atuarmos também, e em definitivo, no front cultural e ideológico. Reduzir as taxas de recrutamento e aliciamento é fundamental para que possamos enfraquecer a estrutura das facções criminosas. Não consumir letras que façam apologia ao crime, não patrocinar ou participar de eventos, propor campanhas publicitárias que esclareçam os danos da cultura do ódio são só o começo. Quem curte, propaga ou promove esses conteúdos, precisa sentir-se incomodado. Mas isso não é tudo, precisaremos ousar ainda mais se quisermos vencer.
Precisamos disputar com as facções criminosas cada criança e jovem das nossas cidades e, para isso, é necessário que possamos reduzir ao máximo a exposição da nossa juventude à narcocultura e aos seus operadores. Para isso, não precisamos inventar a roda. Amntes disso, articular políticas públicas e investir em escolas em tempo integral no coração das comunidades reaparece como solução eficiente. Podemos discutir o modelo a ser implementado, esse não é o debate central aqui. O que é urgente é reduzir o contato dos nossos pequenos com as redes sociais de forma tão prematura e proporcionar um ambiente seguro com atividades curriculares multidisciplinares de caráter obrigatório e pelo máximo de tempo possível por dia. Parece redundante ou cansativo o retorno a esse mantra da educação em tempo integral, mas hoje, mais do que nunca, essa metodologia emerge como tática mais adequada - uma vez da obrigatoriedade prevista em lei dos responsáveis em matricular seus dependentes no sistema de ensino - para redução do recrutamento e enfraquecimento das fileiras do terror.
Hoje, como nunca antes na história do Rio, a educação em tempo integral passa a ser um dispositivo de segurança. Se antes não encaramos a permanência de nossas crianças e adolescentes de forma integral em ambientes seguros e voltados ao desenvolvimento humano como mecanismo de ensino e educação, agora precisamos de forma derradeira entender que o ensino em tempo integral é uma arma de guerra.